semana cósmica na terra da garoa.

São Paulo, Brasil

Vitamina D nenhuma ainda havia sido produzida quando peguei o ônibus metropolitano que me deixaria mais afastado de Curitiba para procurar uma carona. Era a primeira vez que iria pegar uma carona de verdade e minhas pernas tremiam; não sei se era a friaca ou o medo de encarar caminhoneiro com sono às beiras da maior rodovia do país, a BR-116.

I. Carona

Avistei um posto de combustível movimentado e dei o sinal de descida, mas o ônibus parou quase um quilômetro depois. Voltei aquele caminho repetindo em voz alta o discurso do caroneiro/estudante que quer ir à São Paulo para fazer um curso de Astronomia na universidade do estado. “Vou para São Paulo sim, mas não vou hoje, vou ficar aqui mais uns dias.”, foi a primeira resposta que tive junto de um sorriso tranquilo. “Nada mal”, pensei. Quando caminhei mais alguns passos ouvi uma voz me chamando. Virei e era um baixinho sem nada de cabelo e com um café na mão. “Ei, você quer ir para São Paulo? Eu moro quase lá do lado da USP. Eu te levo.” Congelei por alguns segundos enquanto meu sentido aranha analisava a situação: minha primeira carona, conseguida em menos de 5 minutos, com a pessoa me oferecendo e ainda dizendo morar perto do meu destino. “Caramba, sério!? Vambora!”, respondi fazendo fumacinha com a boca.

Começava oficialmente minha semana cósmica.

A estrada estava super tranquila e para minha alegria o Cléber falava mais que o homem da cobra. Nascido no interior do Paraná, morou mais de 10 anos no Rio e agora estava em São Paulo, o que dava à ele um sotaque único. Como venho aprendendo: ouvir é mais interessante que falar; então escutei suas boas histórias e contava um causo ou outro quando pertinente. Formado em Biologia na faculdade, ele exercia muito bem a profissão que aprendera no técnico de eletrônica e agora ganhava uma boa grana no ramo de manutenção de caixas-automáticos numa terceirizada do BB.

Cinco horas de conversa depois já era possível sentir o cheiro do Rio Tietê que cruza toda a São Paulo. Fiquei observando as milhares de casinhas com tijolos expostos que se amontoam na periferia da maior cidade da América. Nos esprememos em grandes metrópolis por melhores condições de vida e de trabalho, mas o saneamento é precário, a segurança também e a rotina é sempre pesada. Quantas horas dariam dali até a faculdade ou o trabalho? Porque escolhemos viver assim? Esqueço que não há isso de escolha para quase todo mundo. Aquilo é o que há. As coisas são assim. Talvez o maldito slogan de “SP Cidade Linda” estivesse maquinado na minha cabeça, mas a realidade era outra; entre a pobreza, o caos e o luxo, “não existe amor em SP” é o que ficaria registrado.

Me despedi do Cléber quebrando a regra dos caroneiros de não pagar por isso - escondido, deixei vinte reais no console do carro para dar uma ajudinha no pedágio. “Até mais, obrigado de coração pela carona!”, agradeci olhando nos seus olhos. “Até! Se cuida por aí.”, ele respondeu antes de dar dois toques na buzina.

II. Rap n’ Rúpias

Desci pouco depois da Marginal Tietê próximo ao centro e fui em direção a Estação da Luz, onde ficava o hostel baratinho que tinha conseguido. Me entristeci ao passar ao lado da concentração - denominada Cracolândia - por ali de usuários de drogas, principalmente crack. Alguns pedintes conversaram comigo, todos educados, mas eu realmente não tinha nenhum centavo no bolso, tratei-os como “brother” e os cumprimentei apertando suas mãos com força. Um aceitou metade do meu suco em pó quente e meio pacote de biscoito - fiquei sem garrafinha, mas levei um obrigado sincero no lugar.

O hostel era tranquilo. Dividi o quarto com um indiano que ainda dormia, às 14h, quando cheguei. Deixei a mochila por ali e fui caminhar pelas redondezas. Queria sentir mais de São Paulo e caminhei pelo centro olhando os grandes edifícios e a variedade de pessoas que passavam. Vi muitos prédios abandonados à especulação junto ao grafite como identidade em quase todo canto. Dei um pulo em algumas praças, duas catedrais, um museu, e nas muitas galerias por ali, inclusive a do Rock; ainda curti uma batalha de MCs por lá também.

Pela comecinho da noite voltei ao hostel e trouxe umas compras para preparar uma refeição. Adesh, o indiano que dividia o mesmo quarto, puxou assunto e começamos a conversar. Inglês ruim com inglês ruim foi um match perfeito e tagarelamos muito. Filho brigado de um político indiano, ele estava viajando pelo mundo depois da morte de sua mãe. Com a grana que o pai lhe devia por não ter ajudado em sua criação, agora podia viajar sem muitas preocupações e assim fazia o roteiro de viagem mais doido que já vi: antes do Brasil estivera na Tailândia, e depois daqui seguiria para a Jamaica! Adorei.

Mais a noite, Adesh estava a fim de tomar umas cervejas num porão perto do hostel onde haviam DJs tocando Rap. “Why not?”, respondi ao convite para acompanhá-lo. O som lá estava demais, curtimos RZO, Run DMC, 2Pac e mais. Quando o DJ colocou uma do Kid ‘N Play o Adesh ficou ainda mais animado. Ele realmente curtia um hip-hop dos anos 90. O lugar estava um pouco vazio, mas as pessoas estavam muito bem produzidas - do pisante ao corte de cabelo - exalando toda sua personalidade afro-americana. Parecia que eu estava numa produção histórica nos subúrbios de Nova Iorque na decáda de 80. Agradeci em pensamento ao meu irmão mais velho, Eduardo, que me apresentou mais das vozes das ruas desde pequeno com suas fitas cassetes do Sabotage. “Zona sul, zona show, os loucos gritam: ‘HO!’.”

O Adesh se animou tanto que queria fumar um baseado do lado de fora. “Oh, man. I love Marijuana!”, repetia ele depois de cada bolada. Me ofereceu, mas recusei dizendo que tinha que ir até a universidade no dia seguinte. Na verdade eu estava com medo de fumar de novo. Na última ocasião (também foi a primeira) que o fiz, percorri 8 quilômetros a pé jurando que a Gestapo me perseguia dentro da Matrix. “Meu delírio é a experiência com coisas reais”, justifiquei cantando Belchior mentalmente; a real é que ainda sou caretão mesmo.

Voltamos ao porão, jogamos umas partidas de fliperama e tomamos mais cervejas. Um assunto puxa o outro e um pouco antes do lugar fechar, o Adesh colocou seu braço sobre meus ombros e perguntou se eu já tinha transado com garotos, me contando que havia ficado com um cara na cidade de Dourados e tinha curtido. Com a barreira linguística não deu para entender muito bem onde ele queria chegar com aquilo, mas somado com outras atitudes anteriores deduzi que era uma investida. Numa balada gay, por exemplo, as cantadas são diretas e “não”, quase sempre, são entendidos como “não”. Senti minimamente como é ser uma mulher e ter que calcular bem atitudes e palavras para lidar com alguém que, às vezes, só quer te levar para a cama. Lembrei que em algumas regiões da Índia, homens andam de mãos dadas, mas o homossexualismo, tristemente, pode te levar à cadeia, então levei numa boa maior ainda. Disse à ele sobre minha orientação sexual e já emendei outros assuntos, logo, tudo ficou resolvido. Só fiquei sem entender como é que ele tinha ido parar no Mato Grosso do Sul.

Retornamos ao hostel e fiz umas tapiocas para juntar ao omelete que ele preparava. Pela minha larica parecia que eu é quem tinha fumado, e mesmo com os mil temperos (mais pimenta) do prato, o sabor estava divino. Ainda deu tempo do Adesh me mostrar vários clipes indianos de música pop e eu indiquei uns sons para ele, desde Seu Jorge até Legião Urbana. No outro dia, antes de partir, o acordei para me despedir e desejei uma boa viagem para a Jamaica. Disse para ele que tinha sido uma prazer conhecê-lo e ele me prometeu que se eu fosse à Índia me receberia para, juntos, cruzarmos o país todo de moto. Antes que eu pudesse me emocionar com a promessa, ele se acomodou na cama e virou para o outro lado. “Take care, my friend!”, foi a última coisa que ouvi já com o som abafado pelo cobertor.

III. Parallel Universe

Rumei da Estação da Luz para a Estação Butantã no eficiente (não em horários de pico) metrô de São Paulo. A cidade universitária da USP é bem próxima da estação e logo ficaria claro porque chamam de cidade. Fiquei hospedado no alojamento do Centro de Práticas Esportivas da USP e as aulas do curso foram ministradas no, meia hora caminhando dali, Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG). A estrutura é gigantesca e nem com minha corrida matinal de 5Km consegui dar a volta no câmpus. Já na chegada ao quarto do alojamento, que fica embaixo de uma arquibancada, pude ouvir um Pink Floyd tocando e conheci dois dos meus companheiros de quarto: Enrique, um engenheiro mecânico viciado em astronomia, e Mauro, um físico que também é pastor e está sempre pronto para te arrancar boas risadas. Só por eles você já pode ter uma ideia de como era nosso bando. Depois, um a um o pessoal foi chegando e eu fui conhecendo mais deles e delas. Éramos 12 no total dos que ficaram no alojamento. Cada um com uma história, um sotaque gostoso diferente, e todos muito inteligentes e amantes da ciência e do desconhecido lá fora.

As aulas foram puxadas e iam das 9h às 17:30, mas para nossa alegria - leia-se também para o meu bolso - tínhamos dois coffee-breaks legais durante o dia. Estudamos do micro ao macro; do fóton que nos permite observar o universo aos super-aglomerados de galáxias; da química de um exoplaneta na zona habitável até o horizonte de eventos de um buraco-negro. Foi fantástico! E mesmo com a primeira palestra tendo como objetivo “desromantizar” a vida de um astrônomo, tudo que veio à seguir parecia poesia.

Suguei o que dava daquelas mentes brilhantes da “melhor” universidade da América Latina. Uma professora de origem russa falou mal de algum dos avanços dos americanos na astronomia (amei). O professor Amâncio Friaça usou uma novela do Asimov e outros trabalhos da ficção científica para explicar sobre avanços na astrobiologia. O professor Rama Teixeira usou cervejas belgas para não esquecermos do, recém descoberto, sistema Trappist-1. E tem também o Prof. Augusto Damineli com sua aula sobre a morte das estrelas e os elementos biogênicos que elas produzem; até parece que as estrelas conspiraram para o surgimento da vida e não nós que surgimos, ao acaso, do entulho expelido por elas. “A vida no universo nasce na morte!”, frisou ele.

Não foi só com os professores que aprendi. Durante uma semana os diferentes sotaques dos meus amigos e amigas me guiaram à novos assuntos e campos encantadores. Assimilei o conhecimento e admirei os sentimentos. Compartilhamos comida, risadas e anseios - cada um do seu jeito. Me ensinaram física clássica num guardanapo de fast-food e a como fotografar os astros “no manual” com uma camêra digital. Me ensinaram também a identificar, a olho nu, a Constelação de Escorpião, a Constelação Cruzeiro do Sul e a nossa vizinha Alpha Centauri. Também pude ver, bem fraquinho, um branquinho no ceú que é o braço da nossa Via Láctea: Que. Coisa. Mais. Linda.

Conclui, ou não, que quero fazer um mestrado em Astronomia. Descobri que computação, programação e eletrônica estão muito ligadas ao trabalho astronômico hoje em dia. Precisam de mais engenheiros do que teóricos propriamente. Será que acho um lugarzinho para mim? Se me aceitarem com meu histórico de graduação cheio de notas ruins, tudo bem. O único problema é a incerteza sobre os frutos do meu trabalho. Será que estou pronto para isso? Ser acadêmico, apesar de tudo, parece entediante às vezes. Não seria melhor seu eu remasse para outras áreas onde possa ver resultados práticos do que faço com mais facilidade? Não sei. Preciso procurar respostas na palavra de Sagan.

Terminando o livro do Sagan, na noite de quinta, é que percebi como os dias tinham passado na velocidade da constante c, e o outro dia já seria sexta-feira, último dia de curso. Tivemos mais aulas, uma palestra sobre a pós na USP e ainda uma pequena provinha de múltipla escolha. Tudo acabou pela tarde, e de noite, quase todo mundo já estava na estrada de volta para a sua cidade. Eu só iria embora no dia seguinte. Foi ruim demais dar tchau para eles.

Depois das despedidas, sozinho, fiquei pensando no que aprendi. E foi muito. Aprendi sobre as estrelas e aprendi mais sobre mim, não sei em que ordem, acho que tudo simultaneamente. No dia seguinte, acordei às 6:30 da manhã para minha última corrida. Em trinta minutos de vento na cara os pensamentos voam de um lado pr’outro, e na metade do trajeto, coincidentemente o ponto mais alto, o sol nasce e a subida reduz minha velocidade. Com o pulmão queimando, recebo o calor do sol e agradeço por me sentir vivo.

Tudo é sobre o cosmos, sobre o universo de cada indivíduo e sobre o universo lá fora. É sobre o sol e sobre dividir seu nascer com outrem entre a nevóa de poluição de São Paulo. É sobre a luz, sobre viajar ao passado, sobre ela gravada em forma de fotografia; é ainda sobre a falta dela no corredor depois do quarto 15. É sobre mais perguntas do que respostas. Sobre o que eu não entendo. Por que eu me atreveria? Só porque está lá?! Clar… “HEEEEEY!”, gritaram. Quase fui atropelado. Os ciclistas aqui costumam acordar cedo também.

Vou sentir muita falta desse universo paralelo de cidades universitárias, pessoas errantes e amigos cósmicos. Ainda bem que o horizonte, não direi qual, é logo ali.